sexta-feira, 31 de outubro de 2008

A VISITA

Há tempos não acontecia.
Parecia que o mundo estava estagnado.
Eu, de um lado.
Eles, do outro.
Sem se tocarem.
Imóveis.
Só os sentimentos,
só os pensamentos,
corroíam a nossa existência.
Existência maculada
por sensações
que não deveriam ser reveladas.
Maculada por um dos lados.
O lado que já se desconhecia,
que se perdia nas irrelevâncias do existir.
O mundo não parou.
Continuou a girar.
E num desses giros,
um lado sentiu dor, solidão.
Sentiu-se só por dentro e por fora.
A reviravolta.
E o mundo a girar...
O lado que estava agonizante,
aos poucos, começou a se levantar.
A ver um belo Sol voltar a brilhar.
Tomada de consciência.

Há tempos não acontecia.
E, agora, voltou a acontecer.
Houve o perdão.
Houve o amor.
Houve o filho pródigo de volta ao lar.
Houve a vitória plena da sabedoria.
Pai e Mãe e filhos se reencontram no achego,
no aconchego do colo de um Amor
que ultrapassa fronteiras
e nunca deixará de existir.

Publicado no Recanto das Letras em 31/10/2008
Código do texto: T1258754

LUZ

Bolas.
Flores.
Bolo.
Música.
Som.
Cores.
Mãe.
Pai.
Sonho. Ilusão.
Vovós.
Vovôs.
Mãezinha.
Mãezona.
Tias.
Tios.
Dinho.
Primos.
Amigos.
Todas as gerações.
Todos os encontros.
Todas as vidas
unidas numa só direção.
Direção a Deus.
Direção a mulher,
ao homem,
na sua procriação,
no nascimento
do seu rebento,
do seu fruto maduro,
de sua energia,
de sua perpetuação:
uma menina,
uma criança,
uma Luz que a todos irradia:
Sophia!

Publicado no Recanto das Letras em 31/10/2008
Código do texto: T1258667

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

TATUAGEM

Corte-me os pulsos.
Prenda-me o ar.
Mas,
deixe-me viver.
Viver o presente,
o passado,
o futuro,
a um só tempo,
para que não se esvaia.

Deixe-me livre
sem as correntes,
sem as amarras,
que eu fico preso,
como tatuagem,
ao teu corpo,
ao teu peito,
ao teu coração.


Publicado no Recanto das Letras em 01/10/2008
Código do texto: T1205550

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

PRIMAVERA

Ao observar
o vento a balançar
os galhos da árvore
com folhas primaveris,
deparei-me com o Tempo:
pueril, implacável, amedrontador,
que a tudo modifica,
que a tudo transforma,
que a tudo esmaece,
que a tudo renova,
que a tudo refaz,
que a tudo renasce.

Tempo, Tempo:
meu templo
de adoração a Deus
e da Vida que brota
em cada instante,
do Nascente ao Poente,
do Ocidente ao Oriente.
Tempo dos Homens.
Tempo dos Céus.
Tempo dos Sonhos.
Tempo de Paz.


Publicado no Recanto das Letras em 24/09/2008
Código do texto: T1194886

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

PORTO DE PÉROLAS

Cena muda.
Gradativamente,
movimenta-se.
Pescadores atracam
a trazer raridades.
Raridades trazidas
do fundo do mar,
com a permissão dos Deuses
e de Iemanjá.
Raridades sublimes,
supremas,
delicadas.
Raridades preciosas:
gente, música,
sons, palavras...
Raridades reluzentes,
brilhantes.
Á procura de um porto:
um porto pra se achegar,
um porto de luz,
um Porto de Pérolas
à beira do mar...


Publicado no Recanto das Letras em 15/09/2008
Código do texto: T1178772

terça-feira, 9 de setembro de 2008

RESPOSTA

Minha resposta
virá com o vento
no redemoinho do tempo
na virada
da página da vida
que espreita minhas emoções.

Minha resposta
será simples,
pura
como água cristalina,
será de inspiração Divina,
soprará ao teu ouvido
como melodia de pássaro.
E tu a entenderás
como um afago,
um sorriso,
um carinho.
Mas,
ela é mais:
é um segredo,
é uma pérola,
é um achado.
Nosso.
Só nosso.
Que nem os homens.
que nem o tempo o desfaz.

Publicado no Recanto das Letras em 09/09/2008
Código do texto: T1168873

sábado, 6 de setembro de 2008

AMOR II

A dor,
ainda,
insiste,
persiste,
resiste,
faz o coração dilacerar.
É como comer
vidro moído,
as vísceras tem dificuldade de expurgá-lo.

A dor
do amor
é dor
insone,
insana.
Leva-te a mundos
sem experiência humana.
Leva-te às trevas.
Leva-te a vidas
desfeitas em pó.
Leva-te à Fênix
renascida das cinzas.
Leva-te a Deus.
À Vida.
À Loucura humana.

Publicado no Recanto das Letras em 06/09/2008
Código do texto: T1164239

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

NOVO RUMO

Pensamentos sazonais.
Sentimentos verticais.
Homem a debruçar
sob a luz do Luar.
Estrelas infindas a brilhar
na retina do seu olhar.
Nuvens esparsas.
Coração vadio
preso a um Passado
infinito, vulgar.
Homem a soluçar
debruçado a janela
do casarão milenar.
A soluçar por si,
pelos outros,
pelo passado,
pelo futuro,
que estão a vir,
a galope irão chegar,
desnortearão todos os rumos
para que novas trilhas
comecem a se traçar.

Publicado no Recanto das Letras em 05/09/2008
Código do texto: T1162621

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

VIVER

Viver.
Rebento maduro.
Nascer.
Brotar uma flor.
Eclodir o amor.
Numa profusãode sons,
de cores,
de seres,
de idéias,
de pensamentos.
Viver.
Rebento oportuno,
que espanta a tristeza,
que engana a dor.
Viver.
Morrer.
Renascer.
Ciclo divino,
como as estações do ano,
como a Esperança e o Amor.

Publicado no Recanto das Letras em 03/09/2008
Código do texto: T1160065

terça-feira, 2 de setembro de 2008

AVE DE ARRIBAÇÃO

Estou a me esconder
como ave de arribação.
Toda vez que fico visível
migro para outras paragens.
Busco o inexplicável,
o obscuro,
o inefável.
Por isso,
estou à deriva.
Náufrago em águas profundas
a boiar sobre um estilete,
a procurar os mistérios da Terra,
a entender os mistérios do Mar.
Mistérios infindáveis
para uma ave como eu,
que não quer pouso certo,
prefere voar ao sabor do Ventos
ou prefere ouvir os sons dos Céus.

Publicado no Recanto das Letras em 02/09/2008
Código do texto: T1158390

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

ILUSÃO

Ilusão foi não contar com o inesperado,
foi não vislumbrar o plausível
que dançava diante de meus olhos.

Ilusão foi não acreditar na intuição,
foi não enxergar com a razão
que as pupilas dilatavam com a luz.

Ilusão foi o não sofrimento,
foi dar-lhe crédito a todo momento
e pensar que nenhum estrago faria.
Ilusão foi iludir-me com estes anseios
foi sentir-me no calabouço da traição
e ver que para o seu desamor não tem perdão.
Publicado no Recanto das Letras em 01/09/2008
Código do texto: T1156148

domingo, 31 de agosto de 2008

SONHOS DO CORAÇÃO

Chuva fina.
Vento frio.
Flores a sorrir.
Nuvens a chorar.

Homem taciturno.
Cachorros em busca de um ninho.
Mulher a cantar modinhas muito antigas,
feitas de magia,
feitas de emoção,
feitas de lembranças,
lembranças de uma criança
que vivia a sorrir
numa casa cheia de histórias e sonhos.
Sonhos vivos, reais.

Sonhos imortais
que perduram,
que pulsam
e vivem enraizados
no mais oculto de um ser.
Sonhos e lembranças
que foram feitos
com todo amor
dentro do coração.

Publicado no Recanto das Letras em 31/08/2008
Código do texto: T1154572

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

VIAGEM NO TEMPO*

Toda vez que contigo converso,
volto o ponteiro do relógio para trás.
Até um tempo remoto
que de mim não se esvai.
Através de ti vejo a Infância,
e como ela era feliz em ti.
Muitas vezes eu não a entendia,
por não saber como vivê-la.
E, tu,a garota gorduchinha de cara amarrada,
sabia dela fazer uma companhia,
uma amiga, uma irmã.
Tu soubeste com ela brincar
e proveito tirar.
Ou melhor, tu a viveste intensamente,
sabiamente.
Curtiste cada gota de mel que te lambuzava.
Cada boneca a ti presenteada.
Cada colega que contigo brincava.
E eu não via como um sentimento deste
modificava as pessoas,
fazia delas algo de especial,
fazia delas algo importante e natural,
fazia delas uma criança
radiante e imortal.
* Poesia dedicada a Edilane Santos Amaral, minha irmã.
Publicado no Recanto das Letras em 29/08/2008
Código do texto: T1151682

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

MARCAS II

Marcas não cicatrizadas
que persistem a incomodar.
Marcas presas ao passado
que no presente estão a ressoar.
Marcas fundidas
com outras.
Marcas profundas
que perturbam,
incomodam,
vivem em solo fértil,
presas dentro de mim.

Publicado no Recanto das Letras em 28/08/2008
Código do texto: T1149869

terça-feira, 26 de agosto de 2008

DUAS PÉROLAS

Duas preciosas pérolas
encontrei a passear
à beira-mar.
Duas pérolas perdidas
ou, pelo menos, esquecidas
por alguém displicente.
Duas pérolas que rolavam
no desfazer das ondas,
onde todos banham os pés.
Duas pérolas brilhantes
que passavam despercebidas.
Duas pérolas infantis
a brincar, brincar...
Duas crianças esquecidas.
Pelos responsáveis?
Ou pelo Mar?
Publicado no Recanto das Letras em 26/08/2008
Código do texto: T1146362

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

PÁGINA EM BRANCO

Mesmo com o tempo a passar,
sou uma página em branco a ser escrita.
Escrita por mim,
por todos que me rodeiam,
pelas felicidades
e agruras
que terei de percorrer
com esse tempo a passar.

Evidente,
que já possuo várias páginas escritas,
sacramentadas,
que não podem
e não devem ser apagadas.

Mas,
o todo é uma página em branco,
a procura de uma palavra,
um sentimento,
um afago,
uma pena para nela escrever,
para nela marcar
a existência de um ser.

Publicado no Recanto das Letras em 25/08/2008
Código do texto: T1144783

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

DIA SIMPLES

Sinto o Sol
sobre a minha cabeça
a esquentar-me os pensamentos.
Pensamentos difusos, vagos,
sem um objetivo pré-determinado.
Assim,
amanheci o dia de hoje.
Dia simples
com cheiro de primavera.
Dia para ficar à beira-mar,
a escutar a sabedoria do Mar.
Dia para sentir o Vento soprando no rosto,
desanuviando a ressaca do dia anterior.
Dia para seguir em frente,
não olhar pra trás.
Dia de renovação.
Dia de viver intensamente,
sem nenhuma culpa,
sem nenhuma dor.

Publicado no Recanto das Letras em 22/08/2008
Código do texto: T1140330

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

VISÃO EM PRETO E BRANCO












http://www.brazilpostcards.com/

Estou a enxergar o mundo
em preto e branco,
como as fotos que ainda guardo comigo
no meio das minhas recordações.

Por que não em cores?
Talvez, me indagues.

Porque estou me revisitando,
me revendo,
me reconhecendo,
me reencontrando
no meio de tantas lembranças
que julgava esquecidas
ou jogadas fora na última arrumação.

Talvez,
depois,
eu enxergue colorido.
Mas, num colorido à moda antiga,
como o dos postais em preto e branco
pintados com as emoções do artista.

Publicado no Recanto das Letras em 21/08/2008
Código do texto: T1138649

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

SOPHIA

Semente.
Vingada.
Fruto futuro.
Tornar-se-á fruto maduro.
Encherá com seu sorriso travesso
de alegria a vida de todos
que já estão a rodeá-la.
Sophia,
menina sonhada e desejada,
embalada nos colos
que já a conheciam e desejavam.
Sophia,
nossa menina,
seja bem-vinda
ao novo mundo
que em breve se abrirá para ti.


Publicado no Recanto das Letras em 20/08/2008
Código do texto: T1136919

domingo, 17 de agosto de 2008

PALAVRA

Doeu
como há tempos não doía.
Uma palavra bem
ou mal dita
fez rebentar o meu peito,
deixá-lo ferido
a sangrar sem estancar.
Palavra dita,
num momento,
que não deveria ser pronunciada.
Deveria permanecer calada.
Verdadeira?
Equivocada?
Ainda não a defeni.
Só sei que me machucou
e me deixou a doer,
no meu mais íntimo,
no oculto do meu ser.


Publicado no Recanto das Letras em 17/08/2008
Código do texto: T1132737